sábado, 2 de junho de 2007

Intimidade no casamento: necessidade x dificuldade

A palavra casal é descrita nos dicionários como um par composto por um macho e uma fêmea, ou marido e mulher. Sabemos, no entanto, que é uma definição puramente descritiva e que não possibilita uma aproximação à complexidade inerente nesta relação de dois indivíduos. Poderíamos fornecer definições jurídicas, religiosas, psicológicas, sociais ou a partir de várias outras perspectivas teóricas. No entanto, a definição de Balint (apud Costa e Katz, 1992) pareceu propícia para iniciar nossa discussão. Segundo ele, o relacionamento conjugal estável “é marcado pelo encontro de duas pessoas parcialmente cônscias do que estão buscando e não plenamente capazes de expressar verbalmente o verdadeiro significado desta busca”.

Isso significa que, apesar de justificarem terem casado com seus cônjuges por conforto e felicidade, ou porque todo mundo casa, ou porque encontrou uma pessoa de que gostou mais do que das outras que conheceu, ou porque cansou de viver sozinho, na realidade, verificaremos que as verdadeiras razões estão relacionadas a motivações muitas vezes inconscientes.

De uma forma geral, as pessoas baseiam suas escolhas conjugais em motivações que possuem origem nas primitivas relações com os pais, que configuram um padrão básico de relacionamento. Além disso, o interjogo entre as reciprocidades e as complementaridades auxiliará na definição deste tipo de relação. Estes fatores fazem com que a formação de um casal seja uma tarefa árdua e cheia de obstáculos.

Este processo depende de inúmeras concessões internas de dois indivíduos, com suas respectivas identidades. Concessões que podem ultrapassar a disponibilidade que a identidade e estrutura de cada um seja capaz de abdicar. Em contrapartida, pertencer a um casal permite que o outro sirva de referência indispensável para a conservação da percepção lógica e organizada de si mesmo. Precisamos do outro para diferenciar o que é real e o que é fantasia, inclusive sobre nós mesmos.

A formação de um casal, além de ser a união de duas identidades distintas, é a fusão de duas identidades. Uma influi diretamente na outra. Esta relação que se estabelece, quando sadia, leva a um sentimento de pertencimento. Muitos dizem que o sentimento de pertencimento é tão inerente ao ser humano que inconscientemente lutamos contra a solidão o tempo todo. Falcke, Diehl e Wagner (2002) constataram que a união das pessoas através do casamento, seja oficializada ou não, ainda parece ser a alternativa mais freqüente no estabelecimento de um relacionamento conjugal estável.

No entanto, Bach e Wyden (1991) afirmam que milhões de casais, embora continuem a viver juntos física e legalmente, na realidade estão emocionalmente apartados, e ninguém sabe quantos casais estão nestas condições. Nesta situação, muito sofrimento pode ser gerado e vivenciado pelos cônjuges. Deriva deste sofrimento o sentimento de ansiedade que surge e decorre da sensação de alienação. Este sentimento seria o responsável por efeitos físicos graves, como depressão e ataques do coração, entre outros.

Para Bach e Wyden (op. cit.), o responsável direto por tais conseqüências é, na verdade, a falta de intimidade dos cônjuges. Goldberg (2000) concorda com a assertiva, ao afirmar que as dificuldades nos relacionamentos são a causa dos freqüentes sentimentos de alienação e exaustão existencial que caracterizam a sociedade Pós-moderna. A falta de intimidade no casamento é apontada como um dos diversos fatores de vulnerabilidade que contribuem para o desenvolvimento da depressão na mulher (Brown et. al., 1975 apud Waring, Tillman, Frelick et. al., 1980).

Quanto à relação entre a falta de intimidade e o divórcio, cabe ressaltar que seria um erro interpretar a alta taxa de divórcio que se observa no mundo como uma fuga à intimidade. A maioria dos casais se separa por ter fracassado em encontrar a intimidade que tanto desejava, ou porque não consegue suportar a dor de viver sem a intimidade que sentiu ter possuído um dia (Bach e Wyden, 1991). Goldberg (2000) é ainda mais enfático. Considera que o encontro relacional íntimo é a experiência humana mais desejada nas relações humanas.

Dificuldades práticas e vivenciais

Os esposos encontram dificuldades crescentes de “recursos” no que se refere a escutar ativamente o cônjuge, de se auto-revelarem um ao outro, de estarem abertos ao companheiro, ou até mesmo de estarem disponíveis para uma simples cordialidade. Aparentemente, segundo Stanford e Danton (op. cit.), na sociedade norte-americana, a maioria das pessoas se casa porque ama e busca atingir e manter a intimidade com o eleito.

Em contrapartida, comentam que, ironicamente, os sentimentos de amor e os comportamentos associados com a intimidade (como a demonstração de carinho) decaem quase que imediatamente após o casamento. Um aspecto interessante é que o número de interações negativas mantém-se constante. Segundo a opinião de Buchner (1984, apud Stanford e Dainton, 1994), isso poderia se dar por decorrência das interações do dia-a-dia, tornando pesada esta faceta cotidiana do casamento, determinando que os ideais românticos, cultivados por ideais culturais, tornem-se de difícil sustentação.
Extraído de
WAINBERG, Lina.
Intimidade para quê? Seu papel na satisfação sexual feminina./ Lina Wainberg. Rio de Janeiro, x, 116f + 18f. Dissertação (Mestrado em Sexologia) Rio de Janeiro: Universidade Gama Filho – UGF, 2004.

5 comentários:

Anônimo disse...

Prezado Virgilio, li atentamente ao seu artigo, vou tentar resumir, os casais se distanciam sem perceber, tudo é tão comum, tudo é tão normal, tudo é tão igual que não se nota a diferença, casada a mais de dez anos (ainda) não vejo mais nada de diferente e não vejo mais nada a descobrir, descobri as coisas boas e as ruins, acordo e durmo com a mesma pessoa ao meu lado, que não é mais namorado, não é mais o amante, não está mais apaixonado nem romântico, é aquele homem comum que sei que esconde de mim e da igreja o que ele gostaria de ser, livre, leve e solto, sem compromissos, sem atribuições, sem cobranças, um dia viajando em férias ele deixou escapar que quase tomou outra estrada ou outro "caminho" se ele estivesse sózinho, eu acho que entre a necessidade e a dificuldade ele está sinalizando a dificuldade.

Anônimo disse...

Eu vivo um casamento de mentira e não vamos nos separar por isso, eu vivo com ele e ele comigo, não sou e não era o que ele esperava, ele parece 20 anos mais novo do que eu, nas idéias, acampamentos, viagens, férias, ar livre, sexo, eu não consigo companhá-lo 100%, fico sempre nos 60%, vamos vivendo, trabalhamos juntos, e isso me esgota "mentalmente" falando. Existe uma dificuldade, já vimos, já sentimos, mas pelo nosso filho vamos vivendo, ele não consegue mudar por mim e eu não consigo por ele. Vamos vivendo, leio seus artigos para entender melhor este universo chamado casamento.

WJr disse...
Esta postagem foi removida pelo autor.
Maiev Shadowsong disse...

Boa noite, muito boa essa postagem.
Gostei muito do blog, esclarecedor, expõe pontos sem tabus e sem preconceitos...
Adicione-me como favorito, posso adicionar-te tambem, assim que descobrir como... Meu blog é:

www.toleranciaerespeito.blogspot.com

Anônimo disse...

gostaria de um esclarecimento maior sobre esse assunto.
Sou casada há 11 anos, tenho um ótimo relacionamento matrimonial e estou sempre consultando coisas novas que edifiquem o nosso convivio.
Abraços,
Ana Paula.
Salvador/bahia